Publicado em / by André Sousa / Em Brand Story, Branded Content

Bruxas e cenouras em tempo de guerra

Ou como uma história tem o poder para alterar… bem, a História

Já observaram os vossos olhos com atenção ao espelho? Aqueles que têm olhos bonitos ou aqueles que dispensam os binóculos para ver as asas de uma mosca a 50 metros de distância certamente estão a pensar na ideia mítica, repetida até à exaustão pelos pais, avós e tios, de que essa beleza e essa acuidade visual se devem às cenouras. Pois bem, a mentira tem então cor e forma, como se pode ver em baixo.

 

 

Embora a Vitamina A que as cenouras nos dão seja responsável por melhorias na nossa saúde ocular, não há carregamento gigante destes vegetais que vá reduzir o número de dioptrias dos seus óculos. Este mito, esta história muito bem contada, começou na II Guerra Mundial quando a Royal Air Force teve de justificar como os seus pilotos começaram a abater cada vez mais aviões alemães durante os raides noturnos da Blitzkrieg.

Como não podiam revelar que tinham um sistema de radar acabadinho de inventar, chamaram as cenouras para a frente de batalha.

Começou então toda uma campanha em que se contava a história do piloto John “Olhos de Gato” Cunningham, que supostamente comia uma quantidade absurda de cenouras para ver melhor durante a noite. Os britânicos alinharam, e começaram também eles a comer mais cenouras.
 

Mas esta não foi a única história que a II Guerra Mundial nos trouxe com contornos estranhos e feitos formidáveis nos céus escuros.

 
Na frente oriental, dizia-se que os russos tinham um esquadrão de bruxas, que bombardeavam as posições alemãs em silêncio com uma pontaria sobrenatural.
Quer tentar adivinhar se a história era mesmo verdadeira?

As “Bruxas da Noite” existiram, realmente bombardeavam os nazis em silêncio e fizeram mais de 30 mil missões de combate durante a noite, alterando o curso da guerra. Tudo isto enquanto usavam eyeliner.

Este esquadrão composto apenas por mulheres, voava nos piores aviões que se possa imaginar – aviões de madeira e lona, com mais de 20 anos, usados para desinfestar os campos de cultivo – sem rádio ou sistemas de navegação e, como tinham de voar a baixas altitudes, a melhor forma de garantir que não eram abatidas era… desligar o motor do avião antes de largar as bombas. Ah, e também tinham de aturar discriminação sexual quando voltavam à base.

 

Moral da história

O storytelling já não é de agora. Mas a forma como evoluiu é impressionante, tanto pela sua capacidade de moldar os eventos à medida que eles são narrados – de forma mais ou menos criativa – como pela sua capacidade de criar novas rotinas, novos hábitos, novas tradições.

Se o storytelling dos tempos de guerra se presta a um pouco mais de fantasia, o storytelling moderno, ou pelo menos o storytelling como nós o vemos, pode ser decisivo para mostrar frentes de batalha que nem sempre chegam a ser mostradas à sociedade.
 

Importa então saber como está o storytelling a ser aplicado, se de forma positiva ou negativa, e qual o nosso papel na construção da narrativa de uma história que daqui a duas ou três gerações ainda poderá ser contada e vivida.

 
Todos queremos acreditar em alguma coisa, segundo nos diz este excelente exemplo de branded content produzido pelo The Atlantic para a Netflix e segundo nos dizem também as duas histórias que contámos neste artigo. Os ingleses queriam acreditar que haveria uma maneira de ultrapassar a escuridão mortífera da Blitzkrieg e, cenoura a cenoura, essa crença prevaleceu. Já as “bruxas”, queriam acreditar nelas próprias, e acabaram por se tornar num exemplo para mulheres de todo o mundo. E digam lá que isso não merece um bom storytelling?

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